Autenticidade = luxo?

O emergir dos makers e uma nova concepção de luxo

Texto por Eliana Macedo - PFM Team Member
Opinião Think Piece
Quinta, 30 de Abril de 2015, 00:25h

Em plena revolução tecnológica, num mundo em que tudo é ‘fast’ e conectado pela internet, assistimos a um paradoxo: em paralelo com o aumento do consumo e dependência de dispositivos digitais, as técnicas artesanais, o handmade, a produção local e muitos ofícios que quase foram extintos começam a ser procurados pelo consumidor.

Progressivamente, assistimos ao emergir de um novo consumidor, mais consciente, informado e exigente, que ultrapassa as barreiras de um sistema que nos habituou a olhar apenas para o produto final e procura qualidade e autenticidade em todo o processo.

Sempre atento ao detalhe, o novo consumidor procura significado em valores reais: valoriza a qualidade, respeita a tradição e o saber artesanal e quer conhecer a história e a origem de cada produto.

 

© Saber Fazer, À Capucha, Ayres Bespoke Tailor

 

Em conversa com Alice Bernando, investigadora e criadora do Saber Fazer, o Porto Fashion Makers procurou saber mais sobre a produção manufaturada e os fazedores e ofícios da cidade. Nas palavras de Alice:

“Hoje em dia existe um público que quando compra se preocupa muito mais em adquirir uma peça de qualidade e que valoriza a origem da matéria-prima, da mão-de-obra, a história real por detrás da peça”.

Alice pensa que “como é tudo tão imediato e superficial, há uma ausência de experiência”, que procuramos colmatar através de sensações materiais e valores reais. “A ideia de comprar uma vez e comprar bem está a crescer e é transversal a todas as áreas”, comenta.

Conscientes da necessidade de procurar significado fora dos limites do digital, as marcas começam a reinventar-se.

Ao perceberem a importância de basearem a produção em técnicas artesanais e em valores tradicionais, começam  a comunicar a história e origem como valores intrínsecos do produto, para além dos seus valores estéticos.

Marcas como a À Capucha começam a oferecer, juntamente com o produto, informação sobre os conceitos de produção por detrás da marca: a origem dos tecidos, quem é o produtor, o local de produção.

Já não basta pensar conceitos e seduzir o consumidor com novas tendências, bom design e promessas de lifestyle. Uma  nova concepção de luxo está a transformar o mercado.

© Munna Design, Alcino Ourives, Fine & Candy

 

Há dois séculos atrás, encontravamos a baixa do Porto dividida por ofícios: os ourives na Rua das Flores, os sapateiros na antiga Rua das Congostas, os cordoeiros na Cordoaria. Nas últimas décadas do sec. XX, com a desertificação da baixa do Porto e a suburbanização, diversos negócios moveram-se para os arredores da cidade e outros extingiram-se. Assim como alguns ofícios.

Aos poucos, assistimos ao ressurgimento do craftsman, o profissional especializado num ofício. E, simultaneamente, aparecem novas oficinas, orientadas pelos mesmos valores, que oferecem alternativas de produção tradicionais.

Partindo do pressuposto que a produção oficinal ou semi-industrial em pequena escala tem um valor que vai para além do que é produzido apenas, o Roteiro Oficinal do Porto, explora a cidade, a sua rede de profissionais e abre-nos a porta das oficinas. Mostra-nos as pessoas e o que elas fazem.

Estas oficinas compostas por “pessoas que mantêm um trabalho de extrema qualidade e têm um gosto muito grande pelo que fazem”, diz Alice, que alimenta o projeto juntamente com José Simões, são cada vez mais procuradas, quer pela atenção que dedicam ao pormenor, quer pela excelência do trabalho que produzem.

 

© Vira Retro, Feelflows Surfboards, Porto Fashion Makers, MetalandOficina Atalaia

 

Alice Bernardo constanta ainda que “há uma nova geração de pessoas interessadas em aprender estes ofícios. A dificuldade está em encontrar uma instituição que os ensine”. Para a investigadora, “em Portugal, não existe ensino profissional técnico de qualidade e há uma falta de uma componente prática.  Por exemplo, para quem quer ser marceneiro e perceber 100% de marcenaria, é muito dificil arranjar uma formação estruturada para chegar a um nível de conhecimento de qualidade”.

Na conferência internacional da Monocle, que decorreu em Lisboa, Tyler Brûle, o director da revista, afirmou que: 

“A nova definição de luxo não é grandes marcas, semelhantes em todo o lado, mas a autenticidade, a história, a memória, porque é isso que atrai as pessoas às cidades”.

Tyler fala de cidades como o Porto. Autenticas, nostalgicas, ricas em cultura urbana. Cidades com uma comunidade criativa efervescente e uma forte capacidade de execução. Cidades de ofícios e de fazedores.

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