Arte Urbana e Ilustração

Novas manifestações culturais

Texto por Eliana Macedo e Mariana Pereira - PFM Team Members
Opinião Think Piece
Sexta, 29 de Maio de 2015, 11:28h

O Porto está cada vez mais colorido e cheio de vida. Apenas dois anos após a polémica em torno da eliminação do graffiti das ruas, somos apresentados aos novos retratos das vidas de S. Bento e um D. Quixote de pincel atrás da orelha dá-nos as boas vindas ao bairro das artes.

Para entender o crescimento desta nova manifestação cultural, o Porto Fashion Makers esteve à conversa com Ana Muska, Mesk, Júlio Dolbeth e António Soares, alguns promotores desta nova tendência.

 

© Espigar nas Gentes

'Apesar da arte urbana já existir em Portugal desde os anos 90, como graffiti e territorialismo, só nos anos 2000 é que, por influência de outros países, aparece uma arte mais conceptual e comunicativa', introduz Ana Muska, co-fundadadora da Circus .

Nas palavras de Ana Muska, 'na altura em que a autarquia achou que a solução seria apagar tudo, devia ter sido marcado um diálogo com os artistas e ter-se percebido que quem pinta coisas na rua, não é só vândalo e sem instrução'.

 

'Há pessoas muito criativas no Porto, há um submundo a fervilhar com ideias e coisas para acontecer”, reforça Mesk, ilustrador e co-autor do primeiro mural legal de graffiti do Porto, destacando que “o problema é que, às vezes, faltam alguns recursos'.

 

Para contornar a situação, em Setembro de 2014, a Circus organizou o primeiro festival de arte urbana da cidade - Push Porto. 'Este festival quis mostrar que a arte urbana tem um propósito muito positivo para as cidades. E, realmente, passado nem um ano, nós vemos que o que fizemos teve e continua a ter impacto na cidade'.

'A a própria câmara está a abrir-se para as várias vertentes da arte urbana e a abrir concursos para este tipo de arte', acrescenta Ana Muska. Desde o último ano, o Axa abriu portas aos writers, a câmara convidou Hazul e Mr. Dheo a dar cor ao mural do parque de estacionamento da Trindade e quinze coloridas caixas de eletricidade acompanham-nos pelo percurso da rejuvenescida Rua das Flores. Entre estes, muitos outros.

 

© Primeiro mural legal do Porto

Júlio Dolbeth, co-fundador da Galeria Dama Aflita, foi um dos ilustradores a participar no 'Espigar nas Gentes', concurso de intervenção integrado no Locomotiva. Para o ilustrador, 'arte Urbana é mais do que grafitti. É uma intervenção no espaço público, independentemente da técnica. A ideia do trabalho é ser poético, efémero, contar uma história que se vai desvanecer com o tempo'.  

Enquanto que António Soares pensa que a arte urbana deve 'dar cor à cidade' e nos 'fazer sentir bem', também Mesk deseja inspirar as pessoas a 'voltar aos tempos de criança e a esquecer os problemas e a rotina, nem que seja só por dois segundos'.

Em paralelo com o despertar do interesse pela ativação do espaço através da arte urbana, a ilustração ganha uma nova força. A Circus, o novo espaço dedicado exclusivamente à arte urbana e ilustração, acaba de nascer em pleno bairro das artes. Segundo Ana Muska:

'A arte da tela está um pouco obsoleta. O público mais jovem, precisava de algo novo. Como os ilustradores em princípio são mais jovens, também têm uma linguagem mais natural para os jovens, que cria maior identificação'.

 

© Dama Aflita

António Soares concorda que estamos perante 'o emergir de uma nova filosofia de vida: uma nova educação, gosto e uma nova geração que está preparada para entender esse tipo de linguagem'. Júlio Dolbeth explica que 'a ilustração consegue ser muito mais abrangente, porque é uma arte que apela muito facilmente à emoção, há uma empatia grande a nível do reconhecimento, pela questão da narrativa'.

Desde a abertura da Dama Aflita, surgiram na cidade muitos nomes ligados à ilustração. No entanto, apesar de todo o reconhecimento, continua a ser uma arte subvalorizada no momento de compra. António Soares partilha desta opinião:

'A ilustração é valorizada e está em grande a nível de visibilidade, mas não o é na parte económica'.

 

Para Mesk, são os próprios artistas que devem 'fazer a arte valorizar', ao fazerem 'as pessoas crer no seu valor'. António Soares reforça que o trabalho dos artistas deve ser reconhecido como o dos restantes profissionais e aconselha a 'continuar a trabalhar e, se possível, trabalhar para clientes internacionais, porque respeitam e valorizam mais o nosso trabalho'.