O fim das coleções

Este é o momento de inovar e de criar algo realmente único

Texto por Eliana Macedo - PFM Team
Opinião Think Piece
Quinta, 26 de Maio de 2016, 02:08h

A industria da moda como a conhecemos está a sofrer transformações profundas. Designers, bloggers, celebridades e consumidores convivem permanentemente e em tempo real nas redes sociais e ditam o nascimento e a morte de tendências, tão rapidamente que se torna insustentável para as marcas acompanhar.

O modelo tradicional, que estabelece o lançamento de coleções em consonância com as previsões das agências de tendências e com a mudança das estações, está a tornar-se obsoleto.

Estamos perante um momento de reflexão e de reinvenção para toda a indústria, no qual o papel do consumidor, das marcas, dos meios de comunicação e das tendências, está a ser irreversivelmente redefinido.

No seu mais recente livro Season of Change: a Forecast of Digital Trends set to Disrupt the Fashion Industry, Yuli Ziv, fundadora e CEO da Style Coalition, reitera que os pré-estabelecimentos da industria da moda não são sustentáveis a longo-prazo. Por isso, segundo a autora, ‘a reestruturação vai ser saudável e acabará por reforçar a produtividade, que por sua vez vai deixar as marcas de moda com mais tempo e recursos para inovar’.

 

Olga Noronha FW16/17 © Rui Vasco 

 

Ziv explica que ‘a maioria das marcas operam num ciclo infinito, ao produzirem entre duas e oito coleções por ano, o que as deixa sem tempo para parar, olhar à volta, reparar de que forma é que o mundo está a mudar, e apresentar uma estratégia adequada à mudança’. De acordo com a mesma, continuar a seguir as regras da antiga industria e a desenhar coleções por estações está a deixar de fazer sentido, com o mercado a evoluir a um ritmo cada vez mais acelerado e a exigir às marcas uma permanente atualização e capacidade de resposta.

Marcas como a Zara e a H&M, que lançam coleções todas as semanas, ou a Topshop, que disponibiliza novas peças diariamente na sua loja online, estão a adaptar-se com agilidade às novas necessidades do consumidor.

Mas como é que marcas de menor dimensão e poder económico, poderão competir com a capacidade das grandes cadeias de lançar novos produtos ao longo de todo o ano?

Para responder aos desafios do digital, os designers de moda devem focar a sua energia na criação de peças que sejam bestsellers e que traduzam eficazmente a identidade da marca, em vez de se preocuparem em fazer coleções completas para cada estação do ano, alerta Ziv. 

 

© Andrez FW14 e Rick Owen's SS11 

 

O mesmo acontece com as tendências. Com a democratização da moda e o desenvolvimento do comércio online, o ciclo natural de uma tendência, - early adopcion - reconhecimento mainstream e consumo de massas - é tão curto que desafia o seu próprio conceito. Cada vez mais, os designers de moda são influenciados diretamente pelo feedback do consumidor, que os informa, através de ‘likes’ e ‘partilhas’ dos seus gostos, interesses e estilo de vida. 

Em entrevista ao BoF, Marc Worth, co-fundador da WGSN, disse que ‘hoje, a ideia de um grupo de pessoas se sentar numa sala e decidir que cores se vão ver daqui a dois anos, ou que materiais vão ser usados daqui a três anos, não faz qualquer sentido’. Num momento em que ‘as tendências emergem do dia para a noite e desaparecem quase tão rapidamente’ nas redes sociais, explica Worth, cabe às agências de tendências, não prever, mas informar acerca das transformações que ocorrem no mundo e fornecer inspirações aos criadores.

 

© João Melo Costa SS15

 

Pierre-François Le Louet, presidente da Nelly Rodi reitera a abordagem de Worth, acrescentando que, o papel das agências de tendências é o de fornecer ferramentas que ajudem a marca a posicionar-se já que, no mercado atual, ’o mais importante é trabalhar a identidade da marca, saber quem somos, o que nos diferencia dos nossos concorrentes’.

Em paralelo, assistimos à efetiva valorização da autenticidade das marcas.

O consumidor atual prefere investir em peças neutras que podem ser usadas independentemente da estação e nas estações seguintes, complementando-as com peças statement que reflitam o seu estilo de vida.

É, neste contexto, que o papel dos designers pode ser realmente inovador. Ultrapassadas as barreiras das coleções, os designers de moda têm mais tempo e recursos disponíveis para explorar o conceito da marca com liberdade criativa.

 

© Hugo Costa SS16 e Daniela Barros AW15

 

Muito mais do que seguir tendências, este é o momento de inovar e de criar algo realmente único e diferenciador.

Nos últimos anos, o trabalho de designers nacionais como Olga Noronha, Ricardo Andrez, João Melo Costa e Daniela Barros reflete esta abordagem disruptiva da industria. Sem preconceitos estéticos, estes jovens talentos criam coleções de pequena dimensão, mas únicas na sua conceptualização. Irreverentes na (des)construção das peças e inovadores na escolha de materiais, elevam a nossa indústria a referência de moda internacional.