Moda & Co

Pertencer, Partilhar, Melhorar

Texto por Eliana Macedo - PFM Team
Opinião Think Piece
Quinta, 29 de Setembro de 2016, 04:00h

Paradoxalmente a uma sociedade cada vez mais individualista, estamos a assistir ao ressurgimento de valores colaborativos. A vontade de partilhar, o desejo de agir coletivamente e a adopção de modelos horizontais, estão a transformar a forma como nos relacionamos, trabalhamos e pensamos o mundo.

A democratização da informação, num período de constantes crises políticas e económicas, está a resultar na descredibilização das instituições centralizadas. Em oposição aos tradicionais modelos de organização vertical, emergem estruturas horizontais que, muito mais do que em hierarquias, se baseiam em ações coletivas, tirando partido da experiência e competências únicas de cada elemento de forma igualitária.

 

© Open-source fashion manifesto

 

O mesmo acontece do ponto de vista do consumo. Cada vez mais exigente e informado, o consumidor quer ter um papel ativo no desenvolvimento da marca, quer ser ouvido, fazer parte do processo. Essa colaboração tem vindo a manifestar-se de diversas formas: co-criação, costumização de produtos, apoio a plataformas de financiamento coletivo e participação em movimentos open source.

 

Alguns exemplos:

 

Co-criação

De forma a criar uma relação mais próxima com o consumidor, a Burberry tem vindo a adoptar estratégicas que encorajam o público a sentir-se parte ativa na construção da identidade da marca. O primeiro passo foi dado em 2009, com a campanha ‘Art of the Trench’, na qual era pedido ao consumidor que enviasse uma fotografia a usar a peça mais emblemática da marca.

 

© Art of the Trench, Burberry

 

Em apenas uma semana, a campanha angariou mais de 400 000 imagens, oriundas de 191 países, traduzidas num aumento da afluência ao site da Burberry de mais de 9 milhões de utilizadores (nos nove meses seguintes). Ao ver a sua fotografia publicada, o consumidor sente que a sua voz é ouvida, que o seu contributo importa, e sente-se motivado a continuar a relacionar-se lealmente com a marca. 

 

Costumização

Com recurso a uma tecnologia de modelação 3D, a marca portuguesa My Swear permite ao consumidor costumizar a cor e o material das suas sapatilhas, a partir de mais de 60 combinações disponíveis. No final, o produto pode ainda ser personalizado com outros elementos pessoais, como um símbolo ou assinatura.

 

© My Swear

 

Seguindo a mesma abordagem, a Adidas possibilita a personalização dos modelos dos vários modelos da marca com qualquer fotografia, em alta resolução. Após selecionarem o modelo e o tamanho da sapatilha, os utilizadores podem pré-visualizar o produto em 3D e 360º, encomendar online e partilhar a sua criação nas redes sociais.

 

Financiamento coletivo

O smartwatch Peeble é um dos melhores exemplos de produtos nascidos através do financiamento coletivo. Quando Eric Migicovsky, presidente da Pebble, procurou investidores para o seu Smartwatch ninguém acreditou no potencial do seu produto.

Numa última tentativa de financiamento, recorreu ao Kickstarter e, em apenas 37 dias, conseguiu angariar mais de 7 milhões de euros. O incentivo do consumidor valeu à marca a venda de mais de 400 mil dispositivos em 2013.

 

© Peeble Steel

 

Movimentos open-source

Nos últimos anos, como o desenvolvimento da internet, a forma como comunicamos e pensamos a informação sofreu transformações profundas. Como consequência, a proliferação dos movimentos open-source ditou o princípio de que a troca de conhecimentos e experiências deve ser promovida e valorizada para o bem da comunidade.

A Adafruit Industries, uma plataforma que fornece tutoriais, promove fóruns de discussão e permite aos seus utilizadores adquirir componentes para a construção DIY de dispositivos eletrónicos, é um bom exemplo desta abordagem.

 

© Adafruit

 

O Open-source Fashion Manifesto, publicado em Fevereiro por Martijn Van Strien e Vera de Pont, alerta que ‘estamos a entrar numa nova era da propriedade comum. Nos últimos anos, os negócios com maior sucesso são os que promovem a partilha. Muitas vezes facilitado pela internet, o movimento está a criar comunidades auto-organizadas que trabalham para um resultado de que todos podemos beneficiar’.

A palavra-chave é ‘envolvimento’. As marcas e empresas devem abandonar o cepticismo e apostar em estratégias de parceria. Afinal, se sozinhos somos fortes, juntos podemos ser ainda mais.