Repensar a joalharia

Novos talentos estão a transformar o setor

Texto por Eliana Macedo - PFM Team
Opinião Think Piece
Quinta, 27 de Outubro de 2016, 12:04h

A joalharia portuguesa renasceu. Irreverentes novos designers estão a revitalizar tradições, a desafiar convencionalismos e a despertar a atenção internacional. Com as exportações a crescer 500%, desde 2008, prevê-se que, nos próximos cinco anos, o setor atinja um volume de negócios na ordem dos 150 milhões de euros.

AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal fala de ‘um momento de ouro’, antecipando um futuro brilhante para o setor. No decorrer da Portojóia, o Porto Fashion Makers foi conhecer de perto o trabalho dos criativos que estão a moldar o mercado, e perceber, na primeira pessoa, o que mudou nos últimos anos.

‘Existe um grupo de jovens interessado em transformar o setor. Há uma diversidade muito grande de materiais, de texturas, de resultados....' 

'Fala-se da joia, mas a joia não tem ouro nem diamantes’, introduz Cecília Ribeiro, designer de joalharia integrante da Portuguese Jewellery Newborn.

 

 

 

 

©  Inês Telles Jewellery e Cecília Ribeiro

 

Cecília explica que ‘a nossa sociedade ainda está muito presa à riqueza do ouro, dos diamantes e à técnica da filigrana’, sugerindo que ‘há que pensar mais à frente, perceber que o design mudou e que é uma forma de expressão’. Enquanto percorre com o olhar o espaço dedicado aos novos talentos da joalharia, a criativa sorri e afirma em tom de orgulho e manifesto:

‘Estamos no bom caminho. Estamos com sangue novo, com espírito renovado, com garra e com um bom retorno e feedback!’.

No mesmo espaço, os projetos de 15 jovens criativos convivem com a marca de Cecília Ribeiro. Recém ‘saídos da casca’, destacam-se pela inovação e contemporaneidade e têm o objetivo comum de promover o seu trabalho. Mas, contrariamente ao que se verifica entre marcas consolidadas, o espírito de entre-ajuda afirma-se perante receios de concorrência comercial.

 

© Ana Pina 

 

A apenas alguns metros da banca de Cecília, Ana Pina partilha que ‘ao contrário do que acontece na joalharia tradicional, todos têm trabalhos muito diferentes’ e, por isso, a abordagem é ‘muito menos comercial’. Quando a questionamos sobre o papel dos novos designers na joalharia, a autora responde no plural: ‘Há um público interessado em peças limitadas e diferentes e nós viemos colmatar essa falta. Já há muita gente que valoriza o design, mais do que o material em que a joia é produzida. Que não pensam a peça como um investimento, mas como algo com que se identificam’.

‘Nós somos a própria marca’, completa Ana Pina.

‘Como somos nós que produzimos e desenhamos, a nossa personalidade está muito marcada nas peças’, justifica, apontando para os exemplos da marca homónima. ‘Eu crio para uma mulher como eu própria: jovem, feminina, urbana e com um sentido de moda minimalista e abstrato'.

 

© Sopro e Nuuk

 

‘O consumidor valoriza cada vez mais o conceito’, acrescenta Isabel de Castro da marca Bellisgirl. ‘Está a haver um boom na joalharia, existem peças diferentes, produzidas a partir de técnicas diversificadas e as pessoas valorizam isso. Não só o design do produto em si, mas o que o produto e a marca lhes transmitem'. Produzida em edições limitadas, a Bellisgirl apoia um conceito vegan e sustentável e tem como missão inspirar os outros a seguir o exemplo.

Romeu Bettencourt, vencedor do Prémio Revelação da PortoJóia, concorda com Ana Pina e Isabel de Castro. ‘A peça não pode ser só vista pelo valor material, tem que ter mais qualquer coisa. O design, as formas, a identidade do criador é essencial na nossa joalharia’, reitera. ‘Eu tento sempre criar algo que seja novo, diferente, algo que eu gosto de ver numa mulher’. E, se os resultados não o agradarem, o autor começa de novo.

Esta nova forma de pensar a joalharia ‘tem muito a ver com a nossa aprendizagem’, conta Romeu Bettencourt.

 

 

© Bellisgirl e Ana João

 

‘Somos de uma geração que tem acesso a um mundo muito maior de coisas, conseguimos absorver de tudo um pouco e vemos coisas que não se viam nas gerações anteriores. Acho que isso é o suficiente para imaginarmos as peças de forma diferente’, esclarece.

Com um trabalho ‘vistoso, que se diferencia pela cor’, Ana João considera que cada peça que cria traduz o seu imaginário e, por isso, ‘há uma ligação emocional muito forte’ a cada uma delas. ‘Estas peças são 200% de mim’ e esta abordagem só é possível, porque ‘ainda não sinto a pressão de desenhar peças para o mercado’, comenta.

Recém chegada da Feira Bijorhca, em Paris, a designer de joalharia partilha o feedback internacional:

‘Antigamente Portugal era visto como um país de produção, não de criatividade. Agora, somos vistos pela qualidade e por termos um design tão bom ou melhor do que os outros países’.

Juntamente com as peças de Bruno da Rocha, as joias de Ana João foram escolhidas para protagonizar a imagem da edição de 2017 da feira de joalharia, demonstrando, mais uma vez, a projeção do setor no mercado externo.

 

© Lia Gonçalves 

 

A Portuguese Jewellery Newborn é uma iniciativa da AORP – Associação de Ourivesaria e Relojoaria de Portugal, que tem como objetivo servir de ponto de partida para os novos designers da joalharia portuguesa, que pretendam promover a sua marca a nível nacional e internacional. Até ao momento, integram a plataforma mais de 20 projetos, entre os quais, Bruno da Rocha, Lia Gonçalves, Nuuk, Joana Ribeiro, MMUTT by Joana Mieiro e Inês Telles Jewellery.

A par dessa iniciativa, a AORP prepara-se para o lançamento da marca Portuguese Jewellery – Shaped with Love. Milla Jovovich é a musa da primeira grande campanha internacional de promoção da joalharia portuguesa, que será apresentada hoje, entre as 18 e as 20 horas, no Museu da Eletricidade, em Lisboa.